Ela não saberá de que se trata,
porque não é dada a leituras bíblicas, então posso afirmar com quase absoluta
certeza que não tem conhecimento da edificante parábola de que fala Matheus, um
dos escribas da Antiguidade cristã. E não conhece também muitos outros textos
de que se compõe a literatura universal, porque a sua Faculdade não
privilegiava a leitura, dedicando-se a, supostamente, prepará-la para a vida
prática (!) Se duvidar, também desconhecerá o significado de parábola e de talento. Cultivassem o grego e o latim nas Faculdades, ela saberia
a origem destas palavras. E o significado. Pergunta-se: como o talento -
da sua significação inicial do grego: “balança”, depois designando “moeda de
prata” veio a diagnosticar habilidades específicas? Assunto de Etimologia,
matéria que só aparece nos cursos de Pós-graduação, e nos cursos de letras. Parábola, do grego, não parece ter
mudado de significação. Mas provavelmente o talento pesado na balança veio a se
confundir com valor. Daí, pelo fenômeno linguístico de alargamento,
talento igual a habilidade, valor de alguém ou predisposição especial para
alguma coisa: talento para as finanças, para a culinária, e para outras coisas
boas ou más.
Mas, recordando o belo e emblemático
episódio bíblico, o Mestre, na sua excepcional didática, ao invés de fazer
longos sermões, usa de um recurso fantástico que explora uma característica
comum a todos os homens: a curiosidade provocada por uma historinha bem
contada. E relata que um rico senhor ao viajar, deixou toda sua fortuna nas
mãos de seus servos fiéis. A um deu para guardar cinco talentos, que lhe
deveria devolver ao voltar, a outro 2, e por conhecer a natureza frágil do
terceiro, lhe colocou nas mãos somente 1 talento.
Ao voltar de sua excursão vieram todos a
sua presença, prestar contas dos bens confiados. O primeiro lhe revelou ter
colocado os cinco talentos que recebera nas mãos dos banqueiros, que já os
havia a esse tempo, e eles renderam 100%; agora devolvia dez moedas de prata, o
que muito contentou ao senhor, que o recompensou e elogiou sua boa iniciativa,
dando-lhe um lugar privilegiado em sua casa. O segundo, que recebera 2 talentos
fizera o mesmo, e passou às mãos do dono o dobro do que recebera, sendo
igualmente recompensado. O último confessou seus temores de ser roubado, sua
excessiva cautela e por isso enterrara o tesouro que lhe fora entregue, indo
buscá-lo para devolver a quem de direito, do mesmo modo como lhe havia sido
confiado à guarda. Recebeu uma saraivada de descomposturas, foi destituído da
honra de servir àquele Senhor e jogado à rua da amargura. O Mestre demonstrava,
assim, o princípio de “dar a quem já tem, e tirar de quem não tem”, porque a
todos foi dada a oportunidade de crescimento, e enquanto os primeiros a aproveitaram,
o último, poltrão, incapaz e inerte, não acrescentou nada, perdeu toda a
ocasião de fazer um bom negócio. A historinha impressionava as mentes
simplórias dos homens daqueles evos.
Tudo conforme o seu tempo. Hoje, haveria questionamentos filosóficos (e
financeiros) e se usaria de outros parâmetros; a lógica dos negócios de ações
do mercado haveria de render boas discussões sobre o melhor meio de manipular o
tesouro do patrão. Discutir-se-iam as opções e se faria o julgamento do dono da
Fortuna. E o Mestre estaria em maus lençóis, com empregados dessa marca. À cada
época o seu ensinamento, ajustado segundo a compreensão dos contemporâneos. Sem
falar no risco de um processo, alerta-me Cecília. O último dos servos acharia
facilmente um advogado de porta de xadrez, que, baseado nos artigos tais e
tais, alegaria discriminação, direitos humanos, e outras possibilidades que a
lei concede, causando, ao Senhor, grandes dores de cabeça, indenizações ao
prejudicado, acusações de favorecimento indevido, nepotismo, é possível.
Mas Cecília, estou certa, não
alcançaria a grandeza do episódio, e daria toda razão ao advogado....
Adendo: Pragmática até onde possa ser, ela me coloca
numa saia justa ao me desafiar, solerte, com uma questão maliciosa: em qual categoria
de servos eu a colocaria? E agora? Sai dessa!
Mas não entrego os pontos facilmente.
Respondo-lhe que precisaríamos criar uma 4ªou 5ª categoria de servos da sua
marca: recebeu do Senhor um tesouro: bens que dilapida rapidamente, sem pensar
conservar, guardar ou multiplicar, ao contrário, gastando-os do modo que acha
melhor. Quem mandou a ele confiar-lhe seus bens?- ela r4esponde.
É, mas terá que dar
contas deles,- como todos nós, afinal....
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