quinta-feira, 20 de março de 2014

Cecília e a parábola dos talentos


              Ela não saberá de que se trata, porque não é dada a leituras bíblicas, então posso afirmar com quase absoluta certeza que não tem conhecimento da edificante parábola de que fala Matheus, um dos escribas da Antiguidade cristã. E não conhece também muitos outros textos de que se compõe a literatura universal, porque a sua Faculdade não privilegiava a leitura, dedicando-se a, supostamente, prepará-la para a vida prática (!) Se duvidar, também desconhecerá o significado de parábola e de talento. Cultivassem o grego e o latim nas Faculdades, ela saberia a origem destas palavras. E o significado. Pergunta-se: como o talento - da sua significação inicial do grego: “balança”, depois designando “moeda de prata” veio a diagnosticar habilidades específicas? Assunto de Etimologia, matéria que só aparece nos cursos de Pós-graduação, e nos cursos de letras. Parábola, do grego, não parece ter mudado de significação. Mas provavelmente o talento pesado na balança veio a se confundir com valor. Daí, pelo fenômeno linguístico de alargamento, talento igual a habilidade, valor de alguém ou predisposição especial para alguma coisa: talento para as finanças, para a culinária, e para outras coisas boas ou más.
        Mas, recordando o belo e emblemático episódio bíblico, o Mestre, na sua excepcional didática, ao invés de fazer longos sermões, usa de um recurso fantástico que explora uma característica comum a todos os homens: a curiosidade provocada por uma historinha bem contada. E relata que um rico senhor ao viajar, deixou toda sua fortuna nas mãos de seus servos fiéis. A um deu para guardar cinco talentos, que lhe deveria devolver ao voltar, a outro 2, e por conhecer a natureza frágil do terceiro, lhe colocou nas mãos somente 1 talento.
       Ao voltar de sua excursão vieram todos a sua presença, prestar contas dos bens confiados. O primeiro lhe revelou ter colocado os cinco talentos que recebera nas mãos dos banqueiros, que já os havia a esse tempo, e eles renderam 100%; agora devolvia dez moedas de prata, o que muito contentou ao senhor, que o recompensou e elogiou sua boa iniciativa, dando-lhe um lugar privilegiado em sua casa. O segundo, que recebera 2 talentos fizera o mesmo, e passou às mãos do dono o dobro do que recebera, sendo igualmente recompensado. O último confessou seus temores de ser roubado, sua excessiva cautela e por isso enterrara o tesouro que lhe fora entregue, indo buscá-lo para devolver a quem de direito, do mesmo modo como lhe havia sido confiado à guarda. Recebeu uma saraivada de descomposturas, foi destituído da honra de servir àquele Senhor e jogado à rua da amargura. O Mestre demonstrava, assim, o princípio de “dar a quem já tem, e tirar de quem não tem”, porque a todos foi dada a oportunidade de crescimento, e enquanto os primeiros a aproveitaram, o último, poltrão, incapaz e inerte, não acrescentou nada, perdeu toda a ocasião de fazer um bom negócio. A historinha impressionava as mentes simplórias dos homens daqueles evos.  Tudo conforme o seu tempo. Hoje, haveria questionamentos filosóficos (e financeiros) e se usaria de outros parâmetros; a lógica dos negócios de ações do mercado haveria de render boas discussões sobre o melhor meio de manipular o tesouro do patrão. Discutir-se-iam as opções e se faria o julgamento do dono da Fortuna. E o Mestre estaria em maus lençóis, com empregados dessa marca. À cada época o seu ensinamento, ajustado segundo a compreensão dos contemporâneos. Sem falar no risco de um processo, alerta-me Cecília. O último dos servos acharia facilmente um advogado de porta de xadrez, que, baseado nos artigos tais e tais, alegaria discriminação, direitos humanos, e outras possibilidades que a lei concede, causando, ao Senhor, grandes dores de cabeça, indenizações ao prejudicado, acusações de favorecimento indevido, nepotismo, é possível.
        Mas Cecília, estou certa, não alcançaria a grandeza do episódio, e daria toda razão ao advogado....
Adendo:   Pragmática até onde possa ser, ela me coloca numa saia justa ao me desafiar, solerte, com uma questão maliciosa: em qual categoria de servos eu a colocaria? E agora? Sai dessa!
     Mas não entrego os pontos facilmente. Respondo-lhe que precisaríamos criar uma 4ªou 5ª categoria de servos da sua marca: recebeu do Senhor um tesouro: bens que dilapida rapidamente, sem pensar conservar, guardar ou multiplicar, ao contrário, gastando-os do modo que acha melhor. Quem mandou a ele confiar-lhe seus bens?- ela r4esponde.
É, mas terá que dar contas deles,- como todos nós, afinal....


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