Antologia de Oleg
Almeida
O homem que veio do frio ataca outra vez. Novos poemas
indevassáveis, à primeira vista. Uma Antologia, o que pressupõe seleção de
páginas diversas, no assunto ou no tempo da sua composição. Mas é sempre o
mesmo poeta sensível, em cujos versos se percebe uma carga intensa de lirismo.
Hiperbóreo, sempre, Ashverus caminhante de muitos caminhos, de muitas
paisagens, carrega consigo um excesso de conteúdo de que precisa livrar-se,
distribuindo-o em belíssimos quanto estranhos comunicados poéticos. Um certo
desespero atravessa este ar glacial com que procura se defender do inexplicável
peso da vida. A realidade o agride e o desconforto não o pode calar.
Sua
poesia tem muitas formas. E o sentido? Ao compasso do pensamento, formando um
clima- será assim tão simples? Haverá linearidade? Vejamos. É necessário
percorrer detidamente estes fragmentos que compõem a sua tão precoce Antologia. Precocidade que atribuímos, com certa
estranheza, a quem tanto tem, ainda, a dizer: é apenas um jovem, amadurecido
pelas experiências fortes.
Para despistar localiza sua posição:
circunstâncias normais de lugar habitado, vida pululando ao redor, a chuva
(leit-motiv) e o frio, uma antiga música de obsoleto realejo provocando particular
angústia, movimento e vida-- conversando as pessoas se entendem;- e então decide partir- enfrentar a
lembrança do passado onde encontrará o amigo, sempre observado pelos que já não
estão, condicionados pela chuva que molha a roupa e a alma.
Num primeiro olhar,
esta especial Antologia (de si mesmo?) expressa sentimentos en train de libéracion. Como viver com
esse acúmulo que quase o sufoca? Mas essa poesia tem diversas camadas. Uma
imediata, exterior, que se mostra através da significação denotativa de
palavras escolhidas e suas combinações semânticas; enganadora, porque
imediatamente se percebe outra, mais profunda, que detém, esta sim, o sentido
verdadeiro que não se desvenda à primeira vista. Escamoteável, sob disfarce
coerente, jaz, submersa, sob o peso das palavras expressivas. Nada gratuito. É
preciso certa habilidade e prática para penetrar os labirintos e descobrir
aquele território comprometido adivinhado ali, onde as imagens se descortinam,
medrosas, ocultando o signo do vero significado. Neste novo desvelar-se
procuramos em vão uma pista que nos leve até ele. Como? Se a poesia é a única
via, e ela tem tantas formas? E quantos sentidos? O pensamento se esvazia, pois
a linguagem humana é inábil para traduzir estes expedientes de que ele se serve
para escapar ao nosso olho crítico.
Temos que partir, certamente, das unidades frasais que nos
desvendam um caminho tortuoso onde iniciar esta jornada em busca da verdadeira
intenção do poeta que constrói e utiliza seus esconderijos. Desde uma inocente
mesa de bar onde um homem evoca suas lembranças até uma escura furna onde
preserva suas emoções. Seu amigo já não está ali; deixou somente sua aura e o
reflexo de sua personalidade, uma forte impressão de momentos que partilharam-
desde a brincadeira de se passarem por “dois gringos desocupados”, e por isso o
brinde aos que igualmente já não estão: Gardel, Borges, Alfonsina, perplexos,
dentro da sua esfera metafísica.
Neste novo livro, realizada a catarse, seria um novo homem,
cheio de vida, pronto para o instante que virá. O encontro marcado há tanto
tempo naquele bar em Buenos Aires, dois amigos y una botella de viño, e demais
referências locais de calles famosas
e música típica, fazem o assunto deste primeiro poema. Mas uma pergunta se
impõe: a poesia requer assunto? Não lhe basta a ela e ao poeta a conjugação de
um desejo forte de transmitir um momento único de beleza, uma necessidade de
expressão, talvez um tenaz imperativo? Como expressar este momento de emoção
profunda, transcendente?
Esse encontro que não se deu, marcado “a las cinco em punto de la tarde,”
vigiado por “olhares empedernidos” de ilustres figuras, a exibir todas as
impossibilidades, como era de se esperar, não lhe pacifica o coração, muito
menos ameniza a saudade. - Porque o amigo jamais será encontrado. É necessário
“mapear as plagas de onde não se retorna”. Ele avisara que não é possível
livrar-se da infância, enquanto o nosso poeta que não é limitado por empecilhos,
espera em vão, observado por seres que também já habitam o Hades. A poesia
poderia ultrapassar os limites da sua especificidade e pressupor uma história?
Deixar entrever no ar um resquício de episódio acontecido ou por acontecer; - um
drama, como motivação à sua resistência? Não, decerto, mas ela consubstancia
seus significados e o pensamento criador é território tão livre como os limites
da própria ação, jamais contido por fronteiras. Ensaiando uma busca, o poeta
inserido no clima do encontro que não se deu, realiza suas lucubrações questionadoras
que tentam desesperadamente apreender um tempo já enquadrado num espaço
transcendente, portanto, não mais passível de acontecimentos, talvez só se
permitindo ser observado através da vitrine sob “uma chuva gélida e tristonha”
que reflete o seu estado de espírito.
Consequência e recompensa: a afirmação do ser em estado de
vigília poética. Que de nada necessita, senão desta sensibilidade que lhe
permitirá o devaneio sem perigo de alienar-se, desfrutar de um direito dos reis! Voltar ao mundo e inserir-se numa realidade
palpável. Concessão que lhe é feita a partir da perfeita noção do seu destino
livre de posses, embora possuindo o mundo inteiro representado por (apenas)” “um
grão de lirismo” que extravasará no direito que o amor lhe concede de
dirigir-se à amada, que em troca, ingratamente, só demonstrará indiferença à
sua devoção.
Ele
transita do estado de sonho para a concretude do momento de intensa vida e
nisso talvez esteja a maior habilidade deste poeta estranho: o circunstancial e
o transcendente observados nas imagens comuns. A capacidade de concretização do
ideal.
A
chuva a enlamear, a esfriar, os dedos cruzados, as mãos que se tocam, ávidas de
doação. Os contrários convivem; sabe-se que qualquer sofrimento há de se
recolher, a vida é feita de altos e baixos, mas aí é que reside o encanto do
que não se espera, e nem se pense no momento mau, simplesmente, viva-se. O
amigo que não volta- estará presente na ciência que permite utilizar-se de
vários planos temporais.
E
são tão bonitos estes versos, dentro de seu mistério, desfilando momentos de
êxtase amoroso, numa cerimônia antiga e delicada sob forma de cadência e ritmo
e assonâncias ocasionais, revelando trato na escolha consciente de palavras, no
artesanato cuidadoso que é apanágio de uma escritura sofisticada.
É
preciso descascar estas estruturas para chegar à fruta protegida por tão
rugosas escarpas. Porque esta poesia não se mostra, como constatamos, à
primeira vista. O poeta defende-se quanto pode, protegido por metáforas ousadas
a dar conta do elemento fantástico que atravessa o texto como uma afiada navalha
a antecipar a tragédia. Tragédia que está diluída no ar, cerne das músicas”
milongueras” que se espalham nos ares bons da cidade ao Sul. Não, entretanto,
livre de um certo ar de mistério ao lidar com o fantástico, e não há como não
curtir a doçura de um outono suave e manso, doce, entretanto atravessado pela
rudeza da vida em convulsões sociais, ciclopes a galopar nas nuvens, os deuses
sempre pacientes à espreita. Ninguém será poupado.
Poesia é imagem e ele nos descerra o outono que torna
lindas as folhas, a mais bela estação do ano, que possui uma luz diáfana e
torna dourados os parques numa gradação de cores quentes e o mais singular
espetáculo da Natureza, folhas vermelhas, macias ao pisar, espalhadas ´pelo
vento que oferece como mais encantador aspecto as árvores, que se tornam
inesquecíveis pela beleza que explode em cores. O poeta observa, atento, mas
para sua musa a visão não é a mesma- ela olhará pela janela e aborrecida ficará
desgostosa e triste com a poesia do abandono que lhe comunica à alma a visão da
realidade. O que para um é um espetáculo plástico de beleza ímpar para outro(a)
pode ser uma paisagem aborrecível, tediosa- folhas douradas X céus cinzentos; a
temperatura fria do seu coração X orgulho do súdito que prefere esperar por
dias melhores, de vez que somente uma pobre ave, a asa ferida, se “anicha na
cornija escorregável”. E sua persistência falha na tentativa de dobrar sua musa
na expectativa do futuro que logo será presente! - a conclusão é que a palavra
não vale nada perante o jogo denso da natureza pois “tudo ainda está por vir”- (a
volta do objeto amado?)- um clímax de solidão extrema. Ele transita do sonho
para o concreto dos momentos de intensa vida circunstancial das imagens
plasmadas- o horror bíblico do inferno é apresentado em terríveis pinceladas. Mas
o poeta precisa surfar acima de todas as estâncias, preservando-se para coisas
mais altas, evitando o risco de se “atolar em banalidades”. É surpreendido,
então, pelo surgimento de um elemento
estranho que faz uma estranha previsão que se concretizará, enigmática e
definitiva, fazendo o contraponto à beleza. O mundo em si é terrificante- a
angústia e a impotência, marcas do ser vivo a conviver com o clímax do amor e a
banalidade do fato corriqueiro- tudo é registrado em linguagem poética que só
deveria expressar o encanto das coisas eternas.
O clímax é sempre original, nunca repetível quando há a
afinidade que torna os amantes únicos e fazem combinar a eternidade do tempo e
a criação do mundo num momento único. Menos propício ao romântico interlúdio, o
sentimento pode explodir tanto numa tarde clara como numa noite infernal quando
as potências celestes assombram, ameaçam com a feroz intempérie,- e a mão
delicada procura a proteção da mão mais forte que lhe dará segurança e conforto,
embora a proximidade desencadeie a fúria insana do sentimento a exigir
pacificação. Necessária a voz que diz estou contigo, nada temas,- qualquer
circunstância existencial ou mesmo temporal nos instantes de medo e/ou insegurança
que o crescimento traz e que a maternidade controlará, breve, colado na pele,
no hálito e no pensamento mostrando sempre a devoção dos que verdadeiramente
amam. É a eternização de um momento de intimidade desencadeando uma expectativa
desgostosa de final de sonho. Usufruir da vida já que não podemos mudá-la na
sua dinâmica intranqüila, com acontecimentos extremos, violentos na maioria;
dias que já amanhecem vermelhos, com “anjos tocando trombetas/ anunciando o
Armagedon”... A solução talvez seja, à maneira da conclusão de Manuel Bandeira,
diante de uma situação insolúvel: tocar um tango argentino.
Constituir-se-ão matéria poética a observação de pessoas
que gastam o tempo com coisas de somenos?- a vida cinzenta de seres amorfos
cumprindo rituais de vida exterior, o tédio dos servidores, a mesmice das
coisas que não mudam; e uma mulher vulgar o bastante para atrair olhares
fesceninos, são flagrantes que intrigam o pensamento de quem deveria estar
ainda entregue aos seus jogos infantis...
Balada da minha
infância é um romance construído
em redondilha maior, apropriado à recitação, dotado de ritmo e métrica regulares.
Avalia-se a perda da descontração a que não é possível entregar-se. Em seguimento,
um curioso exercício construído em versos de dez e de sete sílabas demonstrando
a mestria de quem domina a arte do versejar tradicional, cuja temática é a
insurgência contra os regimes políticos a dispor dos destinos humanos-
participação de um jovem nos problemas do mundo do seu tempo, afinal de todos
os tempos- o papel da poesia social.
Nessa
mesma temática O soneto solar é um
interessante exercício em décimas e septílias que reflete sobre a precariedade
e insensatez dos regimes políticos que dispõem sobre a trajetória das
criaturas.
Segue
com o curioso “ladra d`almas”: o voyeur
curioso a observar um casal que pratica o antiquíssimo ritual do relacionamento
amoroso; tentativa de conhecerem-se em profundidade, ameaçados pela fúria de
uma chuva que ainda mais os distancia de si mesmos, ao aproximá-los. A chuva é
imagem recorrente nestes exercícios poéticos, poemas da juventude que sinalizam
tão precocemente a maturidade do pensamento, fato incomum nos tempos em que
pairamos, ao mesmo tempo que exprimem dúvidas e preocupações sobre a
permanência da poesia em face do poder e focalizam a precariedade da vida e da
liberdade de ser. Vivo fosse Cícero, clamaria: Ó tempora! Ó mores! Calímaco, Asclepíades, Sótades, Apolônio,- o
que vindes fazer, oh mentes privilegiadas, nestes poemas de um quase menino que
há pouco deixou seus brinquedos abandonados a um canto e ousa questionar os
limites do poder, do alcance da palavra e a glória do reconhecimento do mérito?!
Palestra de botequim -um romance onde ocorrem
consonâncias fônicas representando expectativas de poeta precoce, ponderando o
futuro da escrita. E belo poema é este: A
noite, amada, não vai acabar tão cedo. Exibindo uma admirável técnica, Oleg
escreve em francês, o Apólogo sobre um mendigo, a inclusão de
um elemento real da vida a fazer parte do elenco de preocupações de quem
desejaria mudar o mundo.
Estes Ciber poemas são obras da primeira
juventude. Mas já reveladoras da segurança e de todas as qualidades que se
confirmariam no quase menino. Ele se entrega ao julgamento do leitor e seus
amigos tiveram liberdade para se expressar. Como poderia viver, pergunta, sem a
sinceridade dos amigos? E elenca uma
série de questionamentos a demonstrar sua conscientização:
- Como
o amor se implantou no mundo? O mundo é mais interessante, quando se crê, não
importa a qualidade da fantasia a nos iludir; realizar o amor faz olvidar por
um momento a terrível profecia que se realizará: a sombra da morte pairando,
alertando para a realidade contundente: memento
homo... tornando frágil e incerta toda a alegria que poderia provocar a
união perfeita sob o signo de Eros, que diante deste imponderável perde seu
mistério e seu encanto.
A
habilidade de lidar com várias estâncias poéticas é demonstrada nestes poemas
escritos em francês, e reveladoramente sua língua materna surge. Afirmando sua
individualidade preservada, apesar de todas as vivências necessárias ao
exercício da introspecção a que se dedica. Surge com a força criativa da
verdade que está dentro dele. Com toda beleza e originalidade do alfabeto
cirílico utilizado, o que estabelece uma ponte em que se isola, pela
impossibilidade que não nos permite a travessia. Generoso e doador, ele o traduz,
deseja nossa participação certamente, mas adivinhamos nele- terreno pessoal, ressonâncias
inesperadas e inalcançáveis que se espalharão por essa longa reflexão que
seria, segundo suas próprias palavras, “sua biografia lírica”...
E o Outono caminha trazendo suas belas cores; o poeta fecha
aquele recinto onde estão guardadas suas lembranças, mas agora sente-se bem
melhor. Seus olhos nos fitam, a luz aparece neles, e o sentimos de volta ao
nosso lado e à vida que o preservou de tantas ciladas, e podemos afirmar, lhe
trará outras alegrias, outras sensações, embora seu destino esteja traçado-
marcado por intensa sensibilidade, jamais poderá fugir de si mesmo.
A ele cabe carregar a bandeira da poesia. Desse antigo
gênero ameaçado por mudanças, pelo tempo, pelas visões, por tentativas
infelizes de originalidade, por tantos fatores que tentam em vão proclamar seu
esgotamento, sua morte, e pior, sua inutilidade num mundo tão dominado por uma
sofisticadíssima tecnologia, que tenta em vão igualar as pessoas. Como maçãs ou
cerejas num cesto. Terão todas o mesmo gosto?
Desprovidas das cascas não serão, por acaso, diferentes na textura, no
sabor, na doçura?
É preciso prová-las uma a uma. E descobrir como na poesia
de Oleg, a novidade, a frescura, o perfume do velho gênero que lhe revelou seus
segredos. Não esqueçamos que este homem que veio do frio trouxe consigo a
flauta de Orfeu. E poucos, na verdade, saberão tão bem extrair dela as notas
mais harmoniosas, revelando – se é possível?!- uma realidade nova, de puro
encanto poético aos nossos olhos cansados...
Rejane Machado
( crítica literária)
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